Há álbuns que se ouvem e há álbuns que parecem estar constantemente a acontecer, sendo BIPOLAR, o segundo álbum a solo de Mx, um exemplo claro da segunda opção.

Este projeto são 15 faixas em que o artista de Guimarães parece ter decidido que, em vez de escolher uma sonoridade e ficar confortável nela, mais valia abrir todas as portas ao mesmo tempo. O mais surpreendente é que, contra todas as probabilidades, isto não soa a um "trapper" perdido, mas sim a um artista que percebeu que não precisa de escolher uma só versão de si próprio.

“A ÚLTIMA VEZ” é uma introdução perfeita para isso: começa leve, quase bonita demais, com a voz de Mx a flutuar por cima de uma produção pesada, trazendo um contraste que funciona imediatamente e que (felizmente) volta várias vezes ao longo do projeto. Depois temos “OMF FREESTYLE”, onde a velocidade aumenta: Mx soa ainda mais confiante, quase provocador, com aquela energia de quem sabe exatamente o espaço que ocupa ("Pus a cena às costas e ainda dividi com o bro” é aquela barra que representa a filosofia do som).

“MARGlELA BIH” é provavelmente uma das primeiras vezes em que percebemos até onde a produção deste projeto quer ir: o beat de Lil Noon parece uma espécie de hardstyle/jumpstyle perdido num universo trap, atmosférico e agressivo ao mesmo tempo. É uma sonoridade estranha no melhor sentido possível, especialmente porque não é fácil fazer este tipo de junção sem parecer simplesmente aleatório. “COUÇA” já chega com outro peso e, sendo uma faixa que já conhecíamos, funciona quase como uma confirmação daquilo que Mx já tem vindo a construir desde "Lágrimas de Sangue", o seu primeiro álbum. É um single pesado, direto e tem visuais que só aumentaram as expectativas para o projeto.


https://www.youtube.com/watch?v=bR3v6dgkq7M&pp=ygUJY291w6dhIG14


Para surpreender, “MANIA” dá-nos uma das maiores curvas de todo o projeto: é provavelmente uma das músicas mais diferentes da discografia do artista e talvez aquela em que o conceito de "BIPOLAR" fica mais evidente. Tudo parece virado do avesso e, com um beat daqueles, Lil Noon volta a mostrar porque é um dos produtores mais influentes do underground nacional. “ALONE” muda novamente de dimensão e Mx traz BELLA SAINT, uma das vozes femininas mais underrated do panorama emergente, para produzir (juntamente com o talentoso Holympo) e entrar nesta faixa incrível com uma vibe jersey club com alguns toques R&B que pode facilmente parecer deslocada no meio de tudo isto, mas acaba por funcionar porque Mx não tenta forçar a música a ser aquilo que não é.


https://www.youtube.com/watch?v=vZ5jJpg8m70


E depois temos “GUITA” que, para mim, é daquelas faixas em que sinto que ainda não estamos a perceber completamente a potência dela: Mx e xandre parecem estar a competir para ver quem causa mais estrago, e o resultado é uma das faixas mais energéticas do álbum. xandre traz aquele flow que já é característico dele e que encaixa perfeitamente neste universo de trap puro sem pedir desculpa, e provavelmente esta é uma das faixas que mais sentido vai fazer quando sair dos headphones e chegar a uma sala cheia. “PIT” já abranda um pouco, mas não o suficiente para deixar de imaginar um moshpit: é mais introspetiva sonoramente mas continua a ter aquela energia física que atravessa boa parte do projeto.

“MAYBACH” traz Norty e, sinceramente, Mx e Norty juntos já deviam ser considerados uma categoria própria: gostem ou não, é impossível ignorar a influência que os dois tiveram na nova geração do trap português e, quando aparecem juntos, a química está lá e “MAYBACH” é mais um dos bangers que prova que esta dupla continua(rá) a funcionar. “CAPICHE” é, por acaso, a faixa que menos me prendeu, mas não por ser má: as barras estão lá como sempre e Mx está perfeitamente enquadrado nesta que pode ser considerada a sua zona de conforto, mas num álbum que está constantemente a surpreender pela versatilidade, esta faixa acaba por parecer mais segura.

Mas “A LOT” recupera logo essa sensação de descoberta: Norty regressa, desta vez num ambiente muito mais atmosférico e com drums que deixam a música respirar. Esta é uma faixa sobre ambição, trabalho e sobre o caminho que os dois foram construindo tanto individual como coletivamente, e acaba por soar quase triunfal pela clara evolução que temos ouvido ao longo dos anos, e quando parece que já percebemos onde a música vai acabar, ela decide trazer um dos finais mais surpreendentes do projeto. Outro dos grandes momentos é “PERFEITO DEFEITO”, talvez até um dos melhores momentos do álbum: aqui aparece novamente um Mx honesto, com harmonias emocionais e um instrumental acústico que o coloca completamente fora da zona habitual; Holympo entra em cena novamente, desta vez como feature, e não falha nem um segundo, seja na produção ou no microfone. Depois com aquele switch completamente inesperado na segunda parte, a faixa transforma-se mais uma vez e assim temos outro dos momentos mais emocionais de "BIPOLAR".

“EGO” foi produzida por um6ra e continua essa sensação de que o álbum está a tentar descobrir quantas dimensões consegue ter: é atmosférica, etérea e até um pouco estranha, até chegar aquele jumpstyle no final e praticamente mandar tudo pelos ares. É uma escolha curiosa para uma das últimas faixas, porque parece mais uma abertura do que um encerramento, mas então chegamos a “quem eu sou”, que é Mx, uma guitarra acústica e aquilo que ele tem para dizer: depois de tantos 808s, beats agressivos e produções gigantes, esta talvez seja a faixa que mais expõe o artista, e é precisamente por isso que funciona. Há uma ideia quase irónica aqui: depois de um álbum inteiro a mostrar força sonora, Mx prova que também consegue ser forte quando não tem nada para se esconder atrás.

E finalmente, “ERREI E FUI SÓ EU”: era difícil acabar "BIPOLAR" de outra maneira, honestamente. Os 808s voltam com força, as runs vocais aparecem, a energia regressa e Mx termina o álbum tão intenso quanto começou, mas existe aqui uma espécie de solidão muito presente na faixa, uma honestidade que impede que seja apenas mais um banger, e aquele final orquestral é a última rasteira do projeto: quando achamos que já sabemos exatamente como isto vai acabar, Mx ainda consegue mudar o cenário... No fundo, "BIPOLAR" é um álbum sobre contradições, e talvez seja por isso que funciona tão bem.

Mx consegue passar de jumpstyle para acústico, de rage para jersey club, de uma faixa feita para destruir um moshpit para uma música em que parece estar simplesmente sentado com uma guitarra a tentar perceber-se. Não existe uma preocupação evidente em tornar tudo confortável para o ouvinte. Pelo contrário: parece haver uma vontade constante de o tirar do lugar. "BIPOLAR" é, certamente, o projeto mais completo de Mx até agora, não necessariamente porque todas as faixas são perfeitas, mas porque existe uma visão muito clara por trás da quantidade absurda de coisas que estão a acontecer.

E, honestamente, acho que "BIPOLAR" vai fazer ainda mais sentido ao vivo. Porque se “GUITA”, “PIT”, “OMF FREESTYLE” ou “ERREI E FUI SÓ EU” já têm esta energia nos headphones, é difícil não imaginar o caos quando isto estiver a ser tocado numa sala cheia. E é exatamente isso que vamos descobrir no Valtara Takeover, que vai acontecer dia 17 de outubro (sábado) no CAAA Blackbox, em Guimarães (não havia melhor cidade para merecer Mx como headliner!).



Além do Mx, também teremos atuações de UGLYBALD, do grupo breezytown e do J-Dot. "O projeto nasceu na Invicta, pelo hip-hop e pelo underground, e agora chega ao Berço com uma ideia bastante simples: dar aos artistas espaço para tocar e ao público boas desculpas para ouvir coisas novas."

Depois de ouvir BIPOLAR, acho que já temos uma boa desculpa. E se Mx levar metade da energia deste álbum para o palco, o valor do bilhete pode muito bem ser dos melhores investimentos da noite (spoiler alert: it's definitely worth it). Dica de amigo: leva um amigo que fica mais barato para os dois ;)

https://thevaltara.com/events/takeover-guimaraes?ref=underbounds

TOP 3:

  1. PERFEITO DEFEITO
  2. GUITA
  3. EGO


9/10