“Esgotar o Plano B nem era o Plano A”: como uma marca de roupa revolucionou a música emergente nacional?
Nem todos os meses são como setembro de 2026 para a cultura emergente: logo no primeiro sábado, o UNDERBOUNDS realizou o seu primeiro (e último) evento enquanto plataforma de media emergente na icónica Casa Capitão, onde mais de 220 pessoas juntaram-se para apoiar o que é emergente e ver as incríveis performances de dazed lex, fr444n*, sheluvsHUGO, Beyes e Submarino na sala principal; no dia 11, a programação underground continuou com o Strike Alert, no The Dog House XL, e com o UNDERFEST PORTUGAL, cuja primeira edição encheu o Copenhagen Bar Lisboa com nomes como beno lit, 2busy, noxthegod e $lizzy 2860; no Norte, tivemos o Festival Urbano +351, que levou artistas como Beware Jack e Alcool Club ao Hard Club do Porto, dando também espaço a nomes emergentes como Próprio Santos, Lucas Garcez e Luster, e ainda tivemos a STEP UP CULTURE em Guimarães, que contou com a performance de UGLYBALD e batalhas de rimas. No dia 19, a equipa da (Des)Reificação realizou mais uma das suas clássicas noites de hip-hop, no The Dog House XL, com sosmuca, Markzs e KUST OD e muitos outros nomes potentes do panorama. Também já foram anunciadas novas iniciativas com tudo para dar certo, entre elas o UNDA THA GROUND, no Tokyo Lisboa, a 2 de outubro, com Ódio Puro no Meu Peito, Guima e zxllafasho, e o festival de música alternativa Mind Your Fest, agendado para 6 de novembro no Village Underground Lisboa, com Vengeful Fate, Sulfite, Missignono e muitos outros artistas e DJ’s.
Mas há conquistas que merecem ser destacadas, e esgotar um dos espaços culturais mais desafiantes do Porto nunca foi uma tarefa simples, especialmente quando falamos de música emergente nacional. Neste caso, tudo começou com uma ideia aparentemente deslocada... criar uma marca de roupa.
“Tentar”: a palavra-chave
Disseram a Francisco Malafaya que Portugal não sabe criar marcas. Por isso, decidiu fazer aquilo que parecia menos compreensível: tentar. "Mais vale tentar o impossível do que passar a vida a construir algo aborrecido”, afirma. Durante meses, Francisco esteve focado em programar a primeira versão da Valtara. Vieram algumas vendas, mas nada que tivesse mudado grande coisa. “Foram praticamente três anos sozinho, sem fazer a mínima ideia do caminho a seguir. Achei que a tecnologia resolvia, que oferecer a gente conhecida, anúncios e vídeos ajudavam… Depois de falhar 200 vezes, um gajo começa a perceber o que funciona e o que não funciona.” A conclusão surgiu quando percebeu que a parte essencial não estava no código, mas nas pessoas. “A comunidade, a arte, aquilo que nos une. A partir do momento em que isso fez click, tudo começou a fazer sentido. E, de repente, tudo passou a valer a pena.” Finais de 2025, Francisco contactou João Alves, mestre da comunicação também conhecido pelo nome artístico J-Dot, para lhe apresentar o projeto e convidá-lo a participar no crescimento da Valtara enquanto marca e plataforma cultural, e a resposta positiva foi imediata (afinal, great minds think alike, já dizia sei lá quem). A partir daí, o objetivo deixou de ser simplesmente vender roupa, porque isso faz uma Bershka ou uma Primark: a Valtara pretendia construir uma comunidade através de iniciativas culturais capazes de aproximar pessoas, artistas e diferentes formas de expressão.
Comunidade como unidade: da dúvida ao hábito
A primeira experiência foi Beats & Poetry, realizado a 7 de março de 2026, no The Alchemist, que assumiu um formato simples, mas intimista de open mic de música e poesia. Mas ainda nesse mês, a 26 de março, surgiu o UNDERGROUND SHOWCASE, uma iniciativa que desafiava cinco artistas a apresentarem-se no grande Plano B, no Porto, e a primeira edição juntou potência pura, com nomes tais como sheluvsHUGO, SAUCER, Tinx, Dom Brizzy e até o próprio J-Dot a fazer parte do primeiro cartaz do projeto.
“Foi uma das noites mais incríveis das nossas vidas. 180 pessoas viveram-na connosco e confiaram na curadoria do Underground Showcase.”
Obviamente, a primeira edição não ficou isolada: 3 meses depois, lá estavam eles a fazer a segunda edição, com nomes como pedronumb e Hazynbd ao lado de artistas já reconhecidos na cena, como Tiago Mob e Joint One. “O que começa como um caminho solitário, em poucos meses transforma-se em dezenas de pessoas focadas em trabalhar na mesma direção.” Como não há duas sem três, a terceira edição aconteceu no dia 10 de setembro e representou uma mudança decisiva: desta vez, o evento esgotou, ao ponto de ser necessário negar entradas. Em apenas nove meses, Francisco Malafaya, João Alves e a Valtara conseguiram lotar o Plano B com 200 pessoas, reunidas em torno da música emergente e de uma ideia de comunidade que começou numa t-shirt. A Valtara não revolucionou a música emergente por vender roupa: fê-lo ao perceber que uma marca pode ser mais do que um produto... pode ser um ponto de encontro, uma identidade partilhada e uma estrutura capaz de criar oportunidades. A roupa foi o ponto de partida e a comunidade tornou-se o verdadeiro produto!
Este percurso também demonstra que a inovação cultural nem sempre nasce de um plano perfeito (ou podemos dizer um “plano A”? hahaha, desculpem): muitas vezes, surge de uma tentativa insistente, de erros atrás de erros e da capacidade de reconhecer onde está o verdadeiro valor de um projeto. Há coisas que parecem impossíveis, mas só a tentativa prova que, por vezes, algo é considerado impossível simplesmente porque ainda não foi tentado.