UGLYBALD: UM MUNDO PARA ALÉM DA PERSONAGEM
Depois de transformar experiências pessoais num álbum que atravessa música, escultura e performance, UGLYBALD prepara-se para levar o universo de ARTE ATAQUE ao palco. Mas, para perceber o que está a construir, é preciso conhecer a pessoa que lhe dá vida e a personagem que lhe permite transformá-la em arte.

Com ARTE ATAQUE, o seu projeto artístico mais ambicioso até à data, a música é apenas um dos pontos de entrada num mundo que também existe através da imagem, das esculturas e da forma como UGLYBALD se dá a conhecer ao público. Cada elemento acrescenta uma camada àquilo que começou por ser uma ideia e que agora se prepara para ganhar uma dimensão diferente ao vivo.
O universo por detrás de ARTE ATAQUE está prestes a ganhar uma nova dimensão em palco. Não se trata apenas de ouvir as músicas que deram forma ao álbum, mas de entrar na linguagem que UGLYBALD tem vindo a construir. A apresentação foi pensada para ir além de uma sequência convencional de faixas, aproximando-se de uma experiência teatral em que a personagem, o movimento e a música fazem parte da mesma narrativa.
Para perceber como tudo isto se liga, há uma distinção que importa fazer desde o início. UGLYBALD não é simplesmente outro nome para Guilherme. É uma personagem que nasceu dele, das suas experiências e da vontade de encontrar outra forma de as comunicar. Como o próprio explicou durante a nossa conversa:
“Eu nasci Guilherme. (...) Eu criei o UGLYBALD.”

QUEM É UGLYBALD?
“Eu acho que sou um relatador.”
Para UGLYBALD, a matéria-prima da sua arte não se limita às próprias experiências. Está também nas histórias dos amigos, da família e das pessoas com quem se cruza, mesmo quando vivem realidades diferentes da sua.
“Sou um relatador e um artista. Gosto de criar o meu mundo”, explicou. É nesse mundo que diferentes experiências e formas de olhar para a vida se encontram, dando origem a algo novo.
A personagem UGLYBALD permite-lhe levar essas experiências mais longe através do exagero. Como o próprio descreve, é “uma hipérbole da tua história”. A arte torna-se uma forma de transformar aquilo que vive numa expressão própria, sem deixar de procurar uma ligação com quem o ouve. Essa ligação acontece quando alguém se reconhece nas suas músicas e encontra nelas uma nova perspetiva sobre aquilo que está a viver.
É também nas histórias que dão forma às faixas que essa identificação ganha vida. Em Isqueiro, a vulnerabilidade de se apaixonar pela melhor amiga transforma-se em matéria para a escrita. Em Patinho Feio, a sensação de não pertencer ganha outro significado: talvez não haja nada de errado connosco, talvez estejamos apenas no lugar errado, à procura de pessoas capazes de reconhecer aquilo que temos para oferecer. Bom Menino regressa à criança que existe dentro de nós e aos valores que levamos connosco, enquanto That's Crazy brinca com a ideia de ser considerado louco num mundo que também parece ter perdido o sentido. Como explicou, espera que o público pense: “Eu também sinto isto” e perceba que “há uma forma de sair destas cenas”.

É também por isso que ARTE ATAQUE representa mais do que um retrato de uma fase específica da sua vida. Quando questionado sobre se o álbum representa quem era ou quem se tornou durante o processo, UGLYBALD respondeu: “Envolve o que eu era, envolve o que eu sou e o que eu quero ser.”
O álbum atravessa, assim, três tempos: o passado, através dos sentimentos que viveu; o futuro, através daquilo em que quer acreditar; e o presente, onde procura encontrar equilíbrio. Como resume o próprio: “Eu quero é também estar bem no presente.”
ARTE ATAQUE acaba por ser uma forma de organizar diferentes fases da sua vida e transformá-las em algo que pode partilhar com os outros. Não é uma declaração definitiva sobre quem é, mas o registo de alguém que está numa busca contínua para descobrir quem quer ser a seguir.
UM ÁLBUM QUE GANHA FORMA FÍSICA
Em ARTE ATAQUE, as músicas não ficam fechadas só no som. Cada uma tem uma escultura correspondente, criada como uma extensão física daquilo que UGLYBALD imaginou e sentiu durante o processo. São 13 músicas e 13 peças únicas, sem réplicas.
“Só há uma escultura por cada música”, explicou. Para o artista, cada peça funciona como “o bilhete de viagem que foi a música”, uma forma de dar corpo ao universo que existe dentro de cada faixa.
As esculturas também escondem pistas sobre aquilo que poderá vir a seguir. Alguns detalhes passam despercebidos à primeira vista, mas fazem parte de uma construção maior que não se esgota neste álbum.
As primeiras esculturas a serem apresentadas foram as de Bom Menino e Arte Ao Ataque, ambas já disponíveis no Instagram do artista. Outras peças estão ainda por revelar, incluindo uma escultura de um crânio de pantera prateado, pensada para surgir parcialmente enterrada, como um fóssil. A ideia não passa apenas pela peça em si, mas também pelo ambiente criado à sua volta.
Como explicou UGLYBALD, não quer apresentar as esculturas simplesmente sobre um fundo branco. O contexto em que surgem também faz parte da história que está a construir.
A música e a escultura são, assim, duas formas de entrar no mesmo mundo. Nas palavras do artista, a escultura permite mostrar o trabalho manual e o tempo investido numa peça, algo que “dá para tocar, dá para olhar”. Juntas, estas duas dimensões dão a ARTE ATAQUE uma dimensão que vai além do álbum.
O VULCÃO SÓ ESTÁ A AQUECER
Há uma parte do percurso de UGLYBALD que não cabe nas músicas nem nas esculturas. Os momentos que antecederam a criação, as dúvidas e as dificuldades vividas durante o processo. É precisamente esse lado que o artista está a planear mostrar num documentário, filmado com uma Handycam desde o momento em que surgiu a ideia de fazer ARTE ATAQUE.
“Eu quero a cena o mais crua possível.”
A intenção é manter o registo cru, com pouca edição, mostrando o processo tal como aconteceu. Com cerca de uma hora, o documentário acompanha a criação do álbum, os momentos em que Guilherme esteve perto do esgotamento e o caminho até aos concertos. Mais do que explicar como as músicas foram feitas, o filme procura mostrar aquilo que existia por detrás delas.

Mas é em palco que todas estas ideias ganham uma nova dimensão. No dia 17 de outubro, no Valtara Takeover x Breezy Town, em Guimarães, cerca de 90% das músicas de ARTE ATAQUE foram apresentadas ao vivo numa atuação que procurou ir além da música. A entrada dentro de uma caixa, o corredor aberto no meio da plateia e os dois acompanhantes com sacos de papel na cabeça, concebidos pelo próprio artista, ajudaram a dar forma ao universo de UGLYBALD. A diversidade sonora do álbum, refletiu-se numa presença que combina a energia de um popstar com a intensidade de um rockstar.
Apesar de o concerto não ter sido perfeito, ficou clara a intenção de dar corpo às músicas, envolver o público e transmitir aquilo que existe por detrás de cada faixa. Mais do que reproduzir o álbum, UGLYBALD procura transformá-lo numa experiência ao vivo, adaptando uma linguagem que, embora não seja inédita, ganha uma identidade própria dentro da cena underground do Norte.

ARTE ATAQUE é um capítulo importante, mas não uma definição final. Ao vivo, tornou-se claro que UGLYBALD não está apenas a encontrar uma forma de contar a sua história. Está a desenvolver uma linguagem própria, onde música, performance e identidade se cruzam sem que uma dimensão tenha de existir separada das outras.
E talvez seja esse o ponto mais interessante de acompanhar este percurso: perceber até onde pode chegar um artista que não parece interessado em ficar limitado àquilo que já mostrou. Ver UGLYBALD ao vivo nunca foi um arrependimento. Agora, fica a curiosidade de perceber o que fará com tudo aquilo que ainda está por revelar.
O vulcão ainda só está a aquecer.
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Discografia
- INTERMUDO · Beattape
- À TONA · EP
- AMAR A FÚRIA · Beattape
- ADIANTADO MENTAL · EP
- AMOR DE VERÃO · EP
- ARTE ATAQUE · Álbum